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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Os bastidores de uma vitória

Por Karine Thames de Menezes
Ultramaratonista
Rio de Janeiro

OS BASTIDORES DE UMA VITÓRIA: 235 km Que os anjos disseram Amém!

A UAI, Ultra dos Anjos Internacional competição que acontece todo ano no fim de junho, sempre foi a minha menina dos olhos, desde que encontrei na corrida um significado bem especial na minha vida, foi alimentada como um desejo escondido. Aquela prova que todo mundo quer fazer mais que sabe lá no fundo do consciente que existe um caminho muito longo até ela. Não basta só pagar por ela você precisa ter no mínimo de estrutura física e psicológica para fazer. E sem dizer muito treinamento no meio desse caminho. Nos meus melhores sonhos 95 e 135 km já estava de bom tamanho, imagina a distância de 235km.

De lá para cá muita coisa aconteceu, eis que as vésperas de chegar a tão sonhada UAI batia na porta, olhando para trás muitos e intermináveis treinos, competições de ultra que serviram como base para a prova e sem falar nos famosos longões que tinham hora para começar e sem para terminar.

Quanto maior é uma prova de competição, maior são os fatores que você tem que administrar e controlar, como por exemplo: o que levar para colocar nas bag, a viagem, hospedagem, retirada de kit, o vestuário, e é ai que mora o perigo quando o “atleta” pessoa comum precisa saber administrar junto com a sua vida pessoal. Então é isso que eu vou contar agora.

As pessoas quando vê você num pódio, não tem uma mínima noção o caminho que foi para chegar até lá. O meu foi bem intenso e frenético. A contar pelo fator de estar na semana terminando as provas do curso de nutrição, não sabia se estudava ou arrumava as malas, e milhares de questões domésticas e profissionais para deixar em ordem. Com isso a ida para Passa Quatro-MG ao invés de ser bem cedo foi lá pelo meio do dia e acabei chegando bem tarde da noite, o que complicou em despachar as bags, pegar kit, instalar-se no hostel essas coisas normais que todo competidor já sabe de cor e salteado.

O grande dia chegou e com ele a correria veio junto, as vésperas da hora da largada estava a aspirante a atleta amadora, pegando kit, juntos os equipamentos obrigatórios importantes para quem vai encarar uma empreitada solo (survivor), tão necessários para quem não vai contar com nenhum apoio ao longo da prova. Como as bags tinha um prazo para serem despachadas no dia anterior fiquei impossibilitada de mandar os itens para todos os pontos de controle, uma concessão da organização pude mandar meus materiais para duas pessoas o 95 km e 135km. As roupas de frio mandei o 135km mas só que começaria a pegar a noite a partir do 95km que era em Aiuroca, moral da história passei a noite toda com frio e pela bondade de um corredor solo emprestou um par de luvas.

Começa a prova e com ela vem adrenalina normal de toda uma competição e administrar uma idéia martelante de que você tem 235km pela frente, de que qualquer erro nesses quilômetros a frente pode ser fatal e compremeter a sua continuidade. A UAI de 2017, em termos de concorrência feminina estava fortíssima, alto nível de competidoras que de uma forma geral elevou muito o nível a competição, um ponto super positivo para todas. Entre elas estavam: Ana Luiza Matos, Débora Simas, Cris Fernandes, Claudia Adolfi, Tomiko Eguchi entre outras. A proposta inicial era e sempre foi fazer a minha prova e tentar administrar todas as dificuldades que viriam a partir dali. Poderia listar várias dificuldades mais os maiores foi o frio terrível da região, o receio de comer alguma coisa estranha e passar mal, ultrapassar na prova a favorita.

Débora Simas, o sol forte do dia, a distância de 40 km entre os pcs, o fantasma de correr com um único tênis, porque os tênis e equipamentos deixados nos pcs não iriam ser entregues e como não tenho muitos melhor era não arriscar, as assaduras vindas do elástico da calcinha que apareceram ao longo do caminho e a solidão que precisava ser enfrentadas durante o longo do percurso e o medo de quebrar. Nesse tipo de prova, você precisa estar 100% funcionando e atento aos mínimos detalhes. Mas posso dizer que um dos pontos altos em termos de dificuldade foi passar a noite fria em Aiuroca por erro meu e chegar ao 135km com as mãos congelantes, e olhar o amanhecer do dia e saber que naquele dia tinha mais 100km pela frente. Ali a prova está acabando de começar para bom entendedor.

Mais contornando todas as dificuldades a recompensa vem em forma de paisagens exuberantes e um percurso de tirar o fôlego, amizades e experiências vividas e a sensação de caminhar sob as nuvens com a proteção de Deus. É uma prova que valeu todo o esforço para realizar. Um sonho realizado no melhor estilo.

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