terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Não competimos no Aconcagua, mas corremos no Aconcagua

Por Renata Peixoto Vidal
Rio Grande do Sul
RELATO: Uma medalha sem valor... Espero que meus amigos corredores nunca passem por essa frustração. Vergonha internacional para os "Hermanos". Pova cancelada por falta de segurança? não previram isso antes? mas as exigências foram altas: inscrição 1.500 pesos, mínimo 2 noites de aclimatação, equipamentos especiais (vários), atestado médico, teste de esforço, questionário de saúde, e tudo para nada. 1 ano de treino especifico para essa prova, fazendo provas de montanha em toda a temporada como "treino" para a montanha. A natureza com sua altitude imponente não foi páreo para o homem que com sua mesquinharia passou vexame frente aos 15 países participantes. Aí vão as fotos do treino de luxo que foi como batizamos o percurso.
Nota: continuamos a correr mesmo depois do cancelamento. 

COMO ACONTECEU: largada tudo normal todos animados para subir a montanha mais alta das Américas, equipamento checado, muita roupa própria para o frio (usei uma blusa térmica, um blusão de lã fininho, um corta vento The Nort Face, em baixo uma calça normal de corrida, tênis asics que não era de trilha e deveria ter sido e lá fomos nós). Saí forte porque sabia que durante as trilhas só passava de um em um então ganhar posições na subida para depois mantê-las me pareceu uma boa idéia. Fizemos um percurso de 2 km planos antes de começar a subir, ida e volta o que me deu noção de como eu estava na prova. 3º Lugar achei muito bom e me concentrei para não descuidar da alimentação e hidratação. Quando chegamos na altura dos 10 km onde havia uma ponte lá estava uma barreira feita por guarda parques, e o organizador do evento mais a frente dizendo que a prova havia encerrado. Na hora não entendi direito, perguntei o que estava acontecendo e ele me disse: "não há segurança para os atletas, eles estão armados e usando de força"...

Fiquei vários minutos ali parada petrificada, sem saber o que fazer...enquanto isso vários atletas iam chegando e ouvindo a mesma coisa do organizador, uns xingando, exclamando, outros voltando, uma bagunça danada. Daí sentei em uma pedra e chorei...passando um filme na minha cabeça de como foi difícil chegar até ali....PARA NADA!!!

Nesse meio tempo um dos guardas que estava no protesto veio até mim e disse que era corredor, e que não estava participando da prova por ser obrigado a estar no protesto. Ele disse:" vocês vieram aqui para correr, então corram". Então nesse momento me levantei, muitos atletas estavam cruzando o rio, já que a ponte estava interrompida, era pequeno uns 6 m de largura, água pelo joelho, pedras redondas embaixo, água de degelo da montanha, analisei e resolvemos contornar o protesto por fora e cruzar o rio para que continuássemos a correr mesmo sem valer nada. E assim fizemos, chegamos a margem do rio tirei os tênis e as meias, arremanguei as calças e entrei na água, dei uns 3 passos incertos nas pedras lisas e já as lágrimas voltaram, mas agora pela dor...Estar com o corpo quente e entrar na água da montanha pra mim não é uma coisa fácil, tem gente que não se incomoda com o frio, eu não. Saí do rio tremendo muito e já sentando no chão para recolocar as meias e seguir correndo para não esfriar muito.

Daí fomos através do caminho demarcado com sacos que continham pedras dentro para não voar, até chegar a Confluenza a 3.400m. Lá tinha um posto médico onde respondemos a um questionário e verificamos a saturação de oxigênio com um oxímetro de dedo. Estava 89% muito bom para quem esta correndo acima de 3.000m. Daí o pessoal da organização falou: "lá pra cima não há mais nada, o tempo virou e não tem suporte médico nem socorro lá. estamos aconselhando todos a voltarem daqui". Novo dilema: ir ou voltar??? mas eu já tinha ido até lá, e estava me sentindo super bem: sem dor de cabeça, cansaço ou náusea que resolvemos subir mais um pouco...Até chegar a 4.000m de lá realmente a coisa ficou feia, todo mundo voltando e é claro a motivação depois do balde de água fria da prova desmotivou muito para continuar. Daí voltamos correndo sem parar para não congelar com as rajadas de vento que não tenho nem idéia a quantas andavam, mas posso dizer que me sacudiam para os lados e deslocavam meu capacete (que é preso e tem ajuste atrás da cabeça). Fizemos uma descida muito boa e na chegada aumentamos mais o ritmo. Tudo estava lá: pórtico, guarda volumes, chá, sopa quente...porém não valia classificação.
 
Os organizadores nos colocavam as medalhas e pediam desculpas...foi triste sim, uma prova muito triste. Perdas para todos, para o esporte e principalmente para a Argentina.

Queria agradecer minha família que sempre apoia nossas loucuras, nossos amigos e torcedores de plantão. Valeu mesmo!!!!!


FOMOS PARA VENCER UM DESAFIO. VENCEMOS DOIS.... NÓS MESMOS E ATÉ OS MANISFETANTES! 

QUE VENHA A PRÓXIMA PROVA!!!!


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