quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Glaucio Coelho na São Silvestre 2011

Da decisão à inscrição
Tudo começa depois de voltar de um treino matinal em novembro, endorfina nas alturas (sempre ela...), e pilha posta pelo Marcus Peixoto (dono da assessoria da qual sou aluno), que passou como seria o esquema em que ele retiraria o kit e daria uma força até a largada, cheguei 200% pilhado no trabalho com a idéia de fazer a Corrida de São Silvestre, liguei para a patroa, ela disse que não me acompanharia, mas que eu estava liberado para correr e desde que voltasse antes das doze derradeiras badaladas noturnas de 2011. Pronto! Foi suficiente para em uma fração mínima de tempo comprar as passagens e fazer a inscrição sem deixar a razão falar mais alta que a emoção...

E chega o último dia do ano...
Dezembro é mês de comemorações, muita bebida e muita comida..., Se normalmente um corredor sempre acha que não está bem o suficiente para uma prova imagina em pleno Dezembro, sem conhecer o percurso e longe de casa... Frio na barriga é pouco, mas vamos para o aeroporto... Fui de moto para garantir que na volta nenhum trânsito seria problema.
Mais certo do que o frio na barriga antes da largada é que membros da tribo dos corredores se reconhecem em qualquer lugar, seja pela camisa de uma prova anterior, por uma sacola de kit, tênis surrado, ou qualquer outro sinal... No vôo de ida tinha pouca gente com este perfil, não dava para imaginar como seria a volta...rsss...
Chegando em SP, fui almoçar com o Marcus e o pessoal da equipe, neste momento ele já me passou o primeiro problema da organização da corrida, as camisas masculinas haviam acabado e eles prometeram enviar pelo correio em 2012....
Depois do almoço aproveitamos um pouco da área comum (banheiros) do hotel onde o pessoal da equipe que foi no dia anterior se hospedou, bem próximo à largada, para nos trocarmos.
Seguindo para a largada passamos por todo tipo de "folião" tinha covers de Dilma, Tiririca, Falcão, Bozo, Homem-de-Ferro, Cornos, Chaves, Kiko, Chiquinhas, Batman, cangaceiros entre outros...
Andamos até os guarda-volumes (caminhões e vans dos Correios), aí descobri outra falha da organização... Não havia os costumeiros sacos em que lacramos nossos pertences, era entregar para a organização nossa sacola e contar com a honestidade daquele pessoal contratado para trabalhar somente naquele dia...Graças a Deus tudo correu bem...
Nas duas horas que ficamos aguardando a largada pude reparar no pessoal que vai correr e no pessoal que está ali para assistir a corrida e o reveilon, todos em perfeita harmonia, são pedidos de fotos com os  “foliões", são perguntas sobre como é correr e conversas de admiração e incentivo.
Não espere um povo sarado e bronzeado como nas corridas menos emblemáticas, dentre os corredores da SS, boa parte aparenta estar ali para festejar a SS e não para correr a SS, nada contra, aliás, é interessante saber como as coisas mudam de uma corrida para outra e perceber o poder da transmissão pela TV para atrair gente que normalmente não liga para praticar esportes, mas que irá aproveitar a SS como última chance para um feito esportivo em 2011.
Se eu pudesse resumir a SS a uma palavra seria SINERGIA, por que a soma da energia do povo que assiste com a energia dos participantes eleva a décima potência a energia positiva de todo mundo que está ao redor, é o desfile de carnaval da tribo que usa tênis...
Foi dada a largada...
Chuva caía e os alto-falantes anunciavam que foram vinte e cinco mil inscritos e que ano que vem eles pretendem chegar a trinta mil...Não consigo duvidar, por que fiquei quinze minutos aguardando minha vez para passar pelo pórtico de largada, não digo largar, por que não dava para  correr...
Neste momento, o GPS do meu celular não acreditava que era para usar o Runkeeper na Avenida Paulista... Não pegava por nada deste mundo, resolvi ligar ele só para registrar o trajeto, a altimetria e tempo, parti para o plano B, usar o Polar em conjunto com as marcações da prova para gerenciar minha cadência, além disto estava  com o parceiro de equipe, José Renato de Garmin funcionando, ambos tínhamos o mesmo objetivo de pace 6 min por km.
O ritmo da prova
A SS começa na Paulista em descida não muito acentuada, faz uns contornos descendo ainda por uns trechos bem sinuosos e apertados, digo apertados para a quantidade de gente que tem na prova, por que são três faixas de rolamento utilizadas normalmente, duas faixas nestes lugares mais afunilados e umas seis faixas em lugares mais amplos.
Todas às vezes que saímos de um trecho em curva e nos deparamos com uma reta grande, sejam descidas ou subidas, a sensação que tinha era de estar participando como figurante de uma daquelas guerras de O Senhor dos Anéis... É um exército de milhares de pessoas cobrindo toda a tua visão.
Seguimos eu e José Renato buscando espaço entre as pessoas para mantermos nosso ritmo, aproveitando as descidas abaixo de seis'/km, mas com muito cuidado para não acotovelar os mais lentos e nem sermos vítimas de tachões de asfalto ou qualquer outra saliência, nisto se passaram bons 8 km, com pace no geral um pouco superior à meta.
Um pouco antes do km 9 senti que, tava sobrando, dava para apertar o ritmo e voltar a buscar os 6'/km como média da prova, meu parceiro compreendeu e sinalizou para eu seguir, comecei a forçar mais entre as pessoas, nesta hora começava uma seqüência de subidas pesadas cuminando na Brigadeiro, longa e sempre para cima, creio que foi mais de um km e meio de esforço até chegar ao topo e ver as pessoas comemorando o fim das subidas. A frase que mais gostei de escutar foi "Venci o Brigadeiro e agora ele é soldadinho!!!" perguntei a um cara com camisa da Portuguesa se agora ainda teríamos alguma subida e ele avisou que não, outras pessoas também responderam o mesmo, sem que eu precisasse perguntar (pura SINERGIA!!!!), completando o momento duas surpresas, saber que realmente era um descidão, o cenário ideal para dar tudo, e que a multidão era maior do que eu imaginava...
Em um ouvido falavam todos os alertas dados nas revistas especializadas sobre o risco de lesão neste trecho final no outro o capetinha da endorfina...Adivinha quem falou mais alto no meu ouvido? Feitas umas curvas em descida, entro numa reta em forte descida, com mais de 2 km e no final  as luzes da chegada, as pessoas ao redor comemorando avistar o objetivo final de 2011!!!! Daí para frente foram 5'e poucos/km, só com algum cuidado para não atropelar mais lentos ou sofrer com algum tachão ou falha de asfalto (quem disse "o que vem de baixo não te atinge" não era corredor...). O que deu para fazer foi 1:30:57...

Gatoradecolé
Cada corrida tem suas peculiaridades e a SS não é nem de longe diferente...Pela primeira vez vi o Gatorade ser servido em Sacolés, solução muito legal, porque copos são complicados de manusear correndo e as embalagens padrão de Gatorade são lentas de abrir e provocam grande desperdício, o Sacolé você fura com os dentes e aperta para bebê-lo. Quanto aos riscos de contaminação no manuseio são os mesmos dos copos de água. Ponto ruim era que o piso molhado e cheio de sacos plásticos do sacolé ficava escorregadio e nos trazia mais um elemento e tensão.
Nesta hora dos Gatorades ainda teve mais uma passagem engraçada, algumas guardinhas pediram para os corredores jogarem uns Sacolés para elas, os primeiros elas pegaram os seguintes foram caindo e estourando no chão perto delas e elas pedindo para acabar com o "bombardeio"...rsrsrs...

Rivalidade entre os times
Eu já sabia que paulista mistura torcida de time com a de escola de samba, mas não sabia como eram as suas reações durante uma corrida de rua. É impressionante como eles vão discutindo e até como o público atira copo vazio e tampinhas em corredores que estejam com camisa de time rival. Muito estranho...

A Chegada e Dispersão
É impressionante, até a chegada foi tumultuada e com o espaço para pisar negociado mais pelos cotovelos do que pelas pernas...Para completar uma chuva mais forte ainda lavava a alma de quem batalhou até os últimos metros em 2011, pelas minhas contas fiz no máximo 1:31min, o que vai me deixar muito próximo à meta estipulada, porém só terei certeza quando a Yescom resolver informar...Será tão difícil informar assim? Não é tudo informatizado? Bem... A SS é maior do que a Yescom....
Presente final da organização foi à área de dispersão...LAMAÇAL, o lugar tinha sinais de já ter tido grama, mas a chuva pesada somada a dezenas de milhares de pés sobre ele foi à combinação perfeita para nos interar com a lama depois de tanto asfalto...

E agora? Como chego em Congonhas?
Após pegar minha sacola aguardei o José Renato chegar para pegar a dele e fomos às 19:30 procurar um táxi para irmos pegar o vôo das 21hs. Agora uma outra falha da organização, não havia qualquer indicação de onde pegar transportes, tivemos que ir perguntando para o pessoal que estava por lá até descobrirmos o local onde passavam táxis, o que não nos resolveu, por que nenhum taxista queria parar para um bando de malucos encharcados pela chuva...Já estava pensando em irmos correndo a pé para Congonhas, pois o taxista da ida havia me dito que era menos de 5 km dali, quando descobrimos um ponto de ônibus, esta foi a melhor solução, acho que comemorei a vinda do busu como criança comemora a chegada do trenó de Papai Noel! Uns 4 pontos depois, sem trânsito e por R$ 3 lá estávamos nós fazendo o check in e nos "banhando" como dava no Sanitário do Aeroporto.
No check in fui informado que o aeroporto já havia fechado e que acabara de ser reaberto (Amém!!!) e que o vôo sairia às 21:15hs. Beleza! 

Vôo de carreira ou excursão de corredores?
Entrei no avião com tênis e meias que corri, ou seja, pesados de água e lama, mas logo não me senti constrangido praticamente todos no vôo eram corredores, aliás, não vi ninguém que não passasse no meu detector de corredores, comprovado também pela "fragrância" no ar...podre, podre e podre...rsrsrs...
Ao decolarmos sob forte chuva o piloto avisou que enfrentaríamos bastante turbulência, ele infelizmente acertou a previsão, parecia montanha russa...As aeromoças tentaram começar um serviço de bordo, sob aplausos entusiasmados de todos, mas tiveram que abortar a missão por conta da turbulência...Aí vi uma coisa única, o pessoal da frente pediu para que elas passassem a caixinha do serviço de bordo para eles, que foram repassando de mãos em mãos para trás, realmente a SINERGIA da SS nos acompanhou até o solo carioca, com direito a aplausos no pouso, coro de "Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo..." gritos de vitória. FANTÁSTICO!

Valeu a pena?
Depois de pegar minha moto, pagar R$ 53 de estacionamento e partir debaixo de chuva pela Ponte Rio-Niterói cheguei em casa às 22:30hs, onde minha família me aguardava para a ceia. Depois do banho e congratulações pela Saga do dia, veio a pergunta que tenho mais respondido desde então: "Valeu a pena?" A resposta não é simples, se analisar sem emoção a data é ruim, o período para preparação é o pior do ano, o horário não é o que eu treino, o percurso é o mais feio pelo qual já corri (pronto falei!), mas por outro lado participar de corridas emblemáticas, e a SS é a mais famosa do Brasil sem sombras de dúvidas, é algo que levarei na memória para sempre, valeu pela realização pessoal, por conhecer a rotina dos "tarados" que já fizeram e fazem isto todo ano, por descobrir como é correr com gente na rua torcendo mesmo sob chuva e te estendendo a mão, para simplesmente você bater e te passar energia positiva e você passar para ela (mais uma vez SINERGIA). Gostei muito, não escondo que me sinto mais corredor por ter participado, não pretendo voltar a corrê-la, mas dependendo da pilha...

Parabéns Glaucio você foi um guerreiro!!!

9 comentários:

Lito Cordeiro disse...

Esta sim foi uma verdadeira saga!

BMW disse...

Caramba Jorge e Glaucio, que história hen... de toda forma parabéns pelo objetivo alcançado e principalmente por ter chegado antes da meia-noite rs.
Também participei da prova, pena que estou ficando muito chato e tô vendo muito mais o lado negativo que positivo dela.
Confira me relato: http://bmw-runner.blogspot.com/

Um abrx e Feliz 2012 !

Carlos Monte Jr disse...

Texto impressionante! Empolgante e inspirador.
Como corredor iniciante... confesso que chorei! :)
Parabens ao autor.

Anônimo disse...

Parabens Graucio! Mais do que uma prova, a SS é uma festa. A festa do pessoal que se prepara o ano todo para participar. É muito dificil colocar num relato todas as coisas que acontecem durante a corrida... isso que você apropriadamente chama de Sinergia, com os outros corredores, com a população que asiste e anima o atempo todo. Pena que a gente não se enconrou. Eu fiz duas horas e pouco... mas estou muito contente de ter cumprido meus objetivos.
Abração. Eduardo Perez

Maria Helena disse...

Parabéns, Glauco!

Comecei a treinar há um ano, mas não tenho esse objetivo. Contudo, admiro muito quem tem essa coragem e essa garra.
Adorei seu relato.
Vamos ver se você não repetirá a saga?
Aposto que sim.
Abraços,

Maria Helena

Maria Helena disse...

Corrigindo: Glaucio.

Não saiu o "i".
Desculpe.

Maria Helena

Glaucio Coelho disse...

Obrigado a todos! Um 2012 de muitas realizações para nós! abs

Fabiana Coelho disse...

Parabéns, meu maridão! Te admiro de montão! Apesar de implicar quando vc acorda seis horas da manhã para correr, acho muito legal a sua dedicação pelo esporte... Na vida tudo vale a pena se a alma não é pequena... São Paulo realmente não é uma cidade de encantos naturais como o nosso querido Rio de Janeiro,mas o povo de lá dá de dez em termos de torcida nas corridas...Viva a São Silvestre! Que tenhamos sempre uma mens sana in corpore sano... Viva a corrida, viva a vida!

Anônimo disse...

realmente correr na baixada fluminense deve ser de fato mais bonito ou então na orla do rj rodeadas de morros e aquela "gente bonita" que por la habita.